Representatividade dá uma nova experiência para os quadrinhos

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Eu não sou mulher, nem homossexual e muito menos negro. Não faço ideia de como as pessoas que se encaixam em uma dessas características sofrem no dia a dia. Mas essa semana eu li uma história em quadrinhos onde senti uma representatividade tão grande, mas tão grande, que realmente me emocionei. E isso me mostrou que sim, esse aspecto pode (e deve) ser usado como motor na narrativa das histórias.

Em 2015 minha mãe foi diagnosticada como um Linfoma, um tipo raro de câncer (o mesmo que a Dilma e o Gianecchini tiveram). Só que ainda no Linfoma, existem diversas variações da doença e ela acabou sofrendo com um dos mais agressivos e difíceis de tratar.

Ela foi diagnosticada no final de agosto e lutou com a doença até metade de dezembro. Foram cerca de 5 meses atípicos, onde vivenciei de perto todos aqueles dilemas da doença que a gente muitas vezes só vê na tela do cinema ou na novela.

Ela passava por enormes sessões de quimioterapia. Ficava fraca, com olfato hiperaguçado, não tinha fome nenhuma. Se antes suava com qualquer coisa, passou a sentir frio até nos dias mais abafados. Enfim, a vida dela mudou radicalmente e eu fui uma testemunha diária dessa luta. Seja nos períodos em que ficou em casa ou mesmo quando passou meses internada em um quarto de hospital do SUS.

Mas o que isso tem a ver com um site nerd? Simples, a Thor. Isso mesmo, a editora de histórias em quadrinhos norte americana, Marvel Comics, tem a algum tempo uma revista tendo como protagonista uma versão feminina do Thor.

Em um primeiro momento muitas pessoas torceram o nariz para a ideia. Afinal, como poderia fazer sentido uma versão feminina de um herói que sempre foi famoso pela sua virilidade? Bom, quem acompanhou as história entendeu que não se tratava de uma transformação. O Thor machão continuou a existir, só que agora foi criada uma versão diferente.

A Thor é uma heroína que se transforma ao punhar o mágico martelo Mjlonir. Quando está longe dele, ela apenas é Jane Foster. Uma médica, com câncer de mama, que entre as lutas para salvar o dia, precisa passar por sessões de quimioterapia.

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Na primeira edição da revista, o escritor Jason Aaron, cria uma caixa narrativa onde a personagem descreve todas as sensações de passar pelo tratamento quimiterápico.  Colo aqui uma pequena parte do genial roteiro:

“Você pensaria que iria queimar. Todo aquele veneno entrando em suas veias. Mas ao invés disso eu sempre penso que estou congelando até a morte. Pelas primeiras poucas horas, pelo menos. O calor vem depois, queimando de algum lugar lá no fundo, que nem um vulcão em erupção nas minhas tripas. Eu vomito lava e urino produtos químicos vermelhos. E então saio a luz do dia, assando por dentro e por fora.

Amanhã eu estarei mais exausta do que já estive em toda a minha vida. Minhas mãos ficarão paralisadas. Minha boca cheia de feridas. Eu vou deitar na cama, tentar não vomitar, sentindo-me estranha na minha própria pele. Minha própria pele ofegante e careca.

E então, em algum dia durante a semana, minha mente começará a ir embora. Químio cérebro, como chamam. Eu vou divagar e perder meu discernimento mental.  Eu vou esquecer os nomes dos meus amigos. Eu vou ver o mundo ao meu redor como uma névoa. Ao final da semana eu vou ter percebido pela centésima vez que, exceto pela parte de eu estar morrendo, ter câncer é muito mais fácil do que se livrar dele.

E então, eu terei alguns dias para me sentir bem. Alguns dias para viver a vida como uma pessoa normal. Ou pelo menos, o mais normal que eu puder. Antes que eu tenha de vir aqui e fazer tudo isso de novo”.

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Esse roteiro ocorre enquanto a personagem recebe mais uma dose de remédios. Dá para ver apenas por isso que essa é uma HQ diferenciada, que sabe tratar com muito tato um assunto bastante delicado e humano.

Claro que estamos falando de uma história em quadrinhos. A personagem luta contra elfos, gigantes de gelo e outros elementos ficcionais. Mas acima de tudo a Thor é humana. E cada vez que ela se transforma na Deusa do Trovão, ela elimina as toxinas do seu corpo e a quimioterapia perder o efeito. Ou seja, cada vez que ela salva o dia, ela fica mais próximo da morte.

Eu realmente fiquei emocionado com essa história e fico pensando nas outras pessoas, que também passaram pelo mesmo processo e que podem ter lido essa HQ. Penso nas pessoas negras, homossexuais e mulheres, que encontram em personagens recentes da editora, figuras com as quais podem se identificar e despertar um sentimento que vá além.

Muitas pessoas criticam essa publicação da Thor por ser uma mulher assumindo um papel que outrora pertenceu a um homem. Mas é muito mais do que isso. E eu sou eternamente grato ao escritor Jason Aaron por ter conseguido me fazer ficar próximo da minha falecida mãe enquanto eu leio uma história em quadrinhos. Essa é a mágica da coisa.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Cara eu entendo completamente o que voçe passou. Recentemente em minha familia foram tres casos em menos de 2 anos. Minha irmã teve cancer de mama e teve um recuperação sofrida, meu pai teve um processo no estomago mais felizmente descoberto em tempo e vai seguindo na vida, e esta semana um cunhado morreu com cancr no pulmão e cerebro. Cara foram tres bombas simultaneas, passei muitas noites em hospitais…minha esposa idem…e vamos seguindo na vida.

    Lembro que no enterro do meu cunhado algumas pessoas questionavam por que a minha esposa não chorava. Mas estas pessoas não sabiam que durante diversas noites ela já havia passado as claras chorando por se ver impossibilitada de salvar o irmão. E este só tinha a ela para cuidar dele e tomar providencias. Tivemos de ser fortes e unidos e agradecer por termos a fortaleza de nossa união, pois só assim conseguimos passar por isto.

    Pessoas que não sabem o que é este drama da vida real não tem noção e trata a coisa como algo mundado.

    Desejo voce e aos seus muita paz e sobriedade para viver mais um dia.

    Curtido por 2 pessoas

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